Torcedores do Fluminense, pai e filho caminham 125 km em três dias para cumprir promessa de 15 anos
Victor França Alves de Almeida Costa pegou o ônibus da excursão que organizou para o Rio de Janeiro saindo de São Pedro d’Aldeia. Naquele 2 de julho de 2008 a ideia era voltar a pé para casa, custasse o tempo que fosse, porque teria valido a pena, tanto que deu um beijo no filho de 10 anos, Victor Hugo Francesconi, e avisou que demoraria para voltar para casa. As coisas não saíram do jeito que ele queria e só pôde cumprir a promessa a Santa Bárbara e São Jorge 15 anos depois, graças ao filho.
Os dois saíram do pé da ponte Rio-Niterói na cidade vizinha à capital Fluminense e rumaram para casa. A origem se deu porque não pode andar na ponte, senão teriam feito a partir do Maracanã. No trajeto, 125 quilômetros, sete cidades e a missão de fazer o que haviam prometido (cada um em seu tempo). Sem avisar o pai, Victor Hugo prometeu que se o clube deles fosse campeão da Conmebol Libertadores em 2023, iria cumprir a promessa feita pelo pai 15 anos antes, quando assistiu da TV a derrota nos pênaltis para a LDU.
Nas redes sociais, o filho de 25 anos documentou boa parte da viagem com o pai de 58. Assim como Victor Hugo, seu Victor França adquiriu o amor sob influência do pai, que o levava ao Maracanã com frequência desde os cinco anos de idade. Nascido e criado em Pilares e no Méier, passou a frequentar o estádio sozinho com o irmão aos 13. Dezessete anos depois, com uma idade um pouco maior do que a do filho agora, seu Victor França se mudou para São Pedro d’Aldeia, onde mora até hoje.
A paixão pelo Fluminense não arrefeceu, mas exigia uma dedicação maior para que o sangue grená continuasse a bater forte, principalmente na veia do pequeno Victor Hugo. Era ele quem organizava excursões saindo da cidade na Região dos Lagos para o Maracanã. Até aniversário do filho ele já perdeu por causa do Fluminense – mas se defende dizendo que era só naqueles em que o menino ainda era novo e não teria idade para se lembrar. Até porque ele chegava a tempo para as fotos.
Nos jogos fora de casa, não havia excursão, mas isso não quer dizer que um dia de Flu era menos agitado. Uma das primeiras lembranças de Victor Hugo é justamente um churrasco com amigos do pai tricolores assistindo à final da Copa do Brasil de 2005.
Três anos depois, Victor França, que já tinha visto conquistas de Cariocas, um Brasileirão e uma Copa do Brasil, decidiu apelar para as instâncias superiores e prometer aos padroeiros que se eles interviessem e o Fluminense saísse do Maracanã campeão naquele dia, ele voltaria a pé para casa. Nem ele sabe o motivo e tampouco estava preparado. Com apenas uma mochila, um casaco e dois pares de tênis, voltou para São Pedro de ônibus mesmo
Desde então, ninguém nunca mais tocou no assunto. Vieram outras Libertadores e em momento algum a possibilidade de repetir a promessa de 2008 passou pela cabeça de nenhum deles. Até que chegou janeiro de 2023. Victor Hugo prometeu apenas para si, sem comentar nada. No meio do ano, postou em uma rede social. Mas, como o pai não tem, também não ficou sabendo.
– Não avisei a ele. Fui falar um mês antes de andar mesmo (já depois do título), e ainda bem que eu falei, senão eu não teria andado nem cinco quilômetros (risos) – conta Victor Hugo, o filho, em entrevista por chamada de vídeo ao ge, com o pai ao lado, e completou.
– Todas as Libertadores desde 2008, eu nunca tinha feito essa promessa, eu nunca tinha pensado nisso, fiz sozinho, não avisei a ele. Fui avisar ele um mês atrás, quando a gente foi almoçar. Eu falei: “pai, você lembra daquela promessa lá de 2008 que fez? Eu fiz em 2023”. Ele olhou pra mim e falou, na mesma hora: “Vou contigo”. Se não fosse ele, eu não ia andar cinco quilômetros.
Apesar dos 58 anos e estar acima do peso, Victor França caminha cerca de 10km quase todos os dias. Já Victor Hugo, professor de inglês e biologia, é sedentário e nos últimos exames de rotina que fez detectou que boa parte dos resultados estavam acima do ideal. Sendo assim, foi o pai que ditou o ritmo desde o início. Na primeira parte, isso custou uma insolação e quase que o filho abortou a missão para levar seu Victor França ao pronto-socorro. Não foi necessário. Mas eles terminaram o primeiro dia um pouco mais cedo do que o previsto já que o forte calor castigava os peregrinos.
Com um ritmo de mais de 40km por dia, pai e filho precisaram de alguns apetrechos: protetor solar, pomada contra assaduras, relaxante muscular para aguentar o ritmo, curativo e antisséptico para as bolhas – sem contar alguns improvisos como o de usar uma cartela de remédio para furar as bolhas que surgiam principalmente no pé do despreparado filho que usara meia fina e tênis inapropriado para as mais de 30 horas de caminhada. Mas as dores eram o de menos. A preocupação maior estava com a segurança física de passar em estradas que mal tinham acostamento.
– O legal mesmo foi a conexão pai e filho que a gente repôs. Nunca vamos esquecer isso. Sempre tivemos essa conexão, só que aumentou mais. Já viajamos de avião, navio, trem, balão, carro, bicicleta… mas a pé não – conta o pai, que tinha um motivo além de acompanhar o filho na promessa pelo Fluminense.
– Eu fui para tomar conta do meu filho, para protegê-lo, ajudá-lo e ser um amigo. Aí aproveitei e pensei, já que vou fazer essa caminhada, a minha atual esposa, Ava, está com câncer de mama… Falei com papai do céu: “Vou pagar a promessa e já adiantado com outra, porque eu sei que o senhor vai curar ela”. Aí já valeu também, junto, né? Para Deus dar esse livramento a ela também. Já valeu. São minhas três paixões.
Ainda mais amigos depois de toda a experiência de 35 horas de caminhada nas 60 que passaram juntos, seu Victor França também precisou ser convencido de outra coisa: conversar com a reportagem. O filho usou o argumento de poder mostrar aos netos a história de parceria que tiveram nos três dias de maior cumplicidade em 25 anos.
– Um dos poucos amigos que eu tenho é o meu filho. E eu acho que eu sou um amigo dele também. O que eu tiro disso é o sentimento de missão cumprida, sabe? Não formei só um homem, formei o ser humano, a pessoa honesta, conseguir passar para ele a tradição que meu pai também me passou. E sinto que se eu for descansar agora, estou tranquilo.
A sintonia entre eles era tanta que em momento algum cogitaram encerrar a promessa antes do tempo. Assim como o filho pensou em levar o pai ao pronto-socorro e ele terminar enquanto seu Victor França se recuperava com saúde e tranquilidade, nos quilômetros finais a situação se inverteu. Victor Hugo não estava com insolação, mas as bolhas, o cansaço e as dores musculares quase fizeram o pai querer terminar sozinho para que o filho não sofresse mais.
Fonte: ge

